terça-feira, abril 25, 2006

O bom samaritano

Soube hoje pelo jornal que Jorge Pinto da Costa (sim, quem é este gajo para ser chamado pelo nome completo?) já não vai ser acusado de corrupção no âmbito do caso Apito Dourado. É o desfecho esperado neste país de brandos costumes e compadrios vários.
Curiosamente, o Ministério Público até confirma que o senhor Jorge Pinto da Costa pagou uma noitada de putaria ao senhor Jacinto Paixão, que por acaso até é árbitro. Não é de espantar, já que também pagou, aqui há anitos (lembram-se do penta e dos outros antes?), uma viagenzita ao Brasil a um senhor chamado Carlos Calheiros, que por acaso também era juiz da bola, e nada aconteceu.
O Papa é, no fundo, apenas um bom samaritano.A seguir teremos o quê? O Porto a bancar um curso de mergulho ao António Costa ou uma chaimite ao Pedro Henriques?...

Habemos campeone tripeirus

E pronto, o inevitável aconteceu. Com o melhor plantel do futebol português em mais de uma década, o Porto lá chegou ao campeonato, após ter vencido uma equipa da segunda divisão com um penalti inventado.
O facto mais significativo desse jogo foi, no entanto, bem mais marcante que a conquista de um caneco: foi o regresso do Cornetas.
Afinal, aquilo de que qualquer português bom chefe de família estava convencido (e feliz), que o Cornetas já teria morrido de falta de ar ou tivesse passado os últimos anos a sofrer atrozmente de flatulência bucal, numa qualquer cave cheia de mijo na Invicta, tudo isso era mentira, não passava de wishful thinking, meus amigos.
Perante a perspectiva de vencer o campeonato já este fim de semana, em casa do Porto B, o Cornetas voltou ao activo, azucrinando o juízo a todos os telespectadores deste país com a sua chinfrineira de touradas e zarzuelas. Ao ouvir aquele inconfundível som que me lembra do Portugal profundo, de imediato fui transportado para os terríveis anos 90, em que o Porto papava tudo, comandado pelo oliveiresco bigode ou pelo pescoço do Engenheiro Santos, e o meu Benfica se arrastava pelo meio da tabela ao sabor de Nelos, Paredões, Kings e Paulos Pereiras.
Saltei do sofá e, já me sentindo melhor depois de vomitar, ainda fui a tempo de ver os festejos da vitória do Porto. A 3 minutos do fim, uns quantos marmanjos, membros da elite dominante do FCP, entraram no bem guardado campo e entretiveram-se a gamar tudo quanto os jogadores do seu clube tinham no corpo. Esperto foi o Quaresma, que já sabia de tudo e pediu para não ser convocado, senão lá se iam os brinquinhos de ouro e os telemóveis de sabão.
No fim da partida, milhares de pessoas saíram à rua numa aldeia a norte do Douro, festejando a conquista, justa, de mais um título para o seu clube. Nessa linda manifestação de clubismo, esteve reunido o maior grupo de sempre (é verdade, entrou para o Guiness) de chungas, feiosos e bimbos, tendo sido registada a maior densidade alguma vez vista de grunhos de boné (apesar de ser de noite) e de argolinha marota na orélia.
Até em Lisboa, berço do rival Benfica e do insignificante Sporting, o Marquês do Pombal foi invadido por uma multidão de foliões, mais concretamente três, dois jornalistas e uma velhota que procurava uma farmácia de serviço e se perdeu.
Depois do apito final, o Cornetas desapareceu.

Dumb and dumber

Como tem sido habitual, Sporting e Benfica lá andam entretidos a dar tiros no pé. O Glorioso deu metado do jogo ao Nacional, mas de facto os rapazes têm mais em que pensar, nos contratos, nos ordenados, nas férias, no Mundial, no raio que os parta. De um momento para o outro, no plantel do Glorioso só há Roberts, ou seja, gajos que não só não sabem jogar á bola como agem como se se estivessem realmente cagando para jogar à bola. Todos? Não.
Safa-se o Miccoli, o Leo, o Mantorras e talvez o Manel Fernandes. O resto tá a pensar no bronze das férias.
No Sporting, tivemos mais uma sessão de tiro ao boneco e o jogo de despedida do capitão Sá Pinto. Expulso mais uma vez, acaba a carreira na bancada, e é muito bem feito. Conflituoso, chato pa caraças, provocador, e ainda por cima nunca foi metade do jogador que, no início, chegou a prometer. A braçadeira de capitão não dá imunidade para tudo, e Sá Pinto não a soube honrar. Enquanto benfiquista, preferia mil vezes ter como capitão da minha equipa um tipo como o Sá Pinto do que ter o Simãozinho, que só joga à bola e pouco mais, mas isso não faz do leão um capitão a sério.
Apesar de tudo, um tipo que deu nos cornos ao Artur Jorge não pode ser má pessoa, e acho que todos os benfiquistas lhe devem ao menos uma certa simpatia.
Faltam duas jornadas e, pelo andar da carruagem, nenhum dos dois clubes fará pontos até final. É por essas e por outras que o Porto é campeão.

domingo, abril 16, 2006

31ª Jornada – O regresso do Profeta

Neste período pascal, o Profeta regressou em grande, como já andava a ameaçar fazer. Mantorras, o príncipe negro, ergueu-se do banco qual Lázaro da caverna e levou o Glorioso à primeira vitória no território bárbaro do Bessa nos últimos 10 anos.
No que toca à jornada, temos o Porto cada vez mais campeão. Sem jogar bem mas sem sentir dificuldades, o clube tripeiro ganhou em casa ao ineficiente Leiria, e basta-lhe ganhar o próximo jogo, com o Penafiel, para ser campeão. Por acaso o Porto até joga em casa, dado que o presidente do Penafiel, um senhor de bigode chamado António Oliveira, é o maior accionista da SAD do Porto, mas isso são outras histórias.
O Sporting voltou a ser aquele clube de quem toda a gente gosta, a quem basta um percalço para que os jogadores comecem a duvidar das suas próprias capacidades. Na Amadora, um empate a zero, sendo que até foi o clube patrocinado pela Gelpeixe quem mais fez pela vitória.
O meu Benfica lá se safou no Bessa, num joguito razoável em que o árbitro Paixão fez, como habitualmente, merda. Um penalti não assinalado a favor do Boavista, um golo mal anulado por pretenso fora de jogo do Manduca e um vermelho directo que ficou por mostrar a um huno chamado Tiago, que tentou agraciar o capitão benfiquista com um bilhete só de ida para o hospital das próteses. Enfim, o costume.
A chave do jogo voltou a ser o grande Mantorras, o Jet-Li da cubata (obrigado Inspector Rôla), o Eusébio dos 10 minutos, o grande Pedrito de Angola. Com um toque subtil, anichou a chincha nas redes fosforescentes de chuva, por baixo do monstro de ébano de nome Khadim.
Primo Torras, como sempre, és o maior.
No final da jornada, o Benfica está a dois pontos da lagartagem. Seria hilariante que os conseguíssemos ultrapassar outra vez, mas é altamente improvável dado o calendário até final. Ainda assim, o Sporting já nos habituou a surpresas felizes, portanto acreditemos.
Saudações benfiquistas.

sexta-feira, abril 14, 2006

Gil Vicente all over again

A última jornada foi bastante interessante. Todas as atenções estavam concentradas no clássico Sporting-Porto (clássico, não derby), que acabou por ser um jogo absolutamente miserável. Que eu tenha contado, o Sporting teve meia oportunidade em todo o jogo (João Moutinho), contra duas do Porto (ambas por Jorginho), o que é muito pouco para as duas equipas que melhor têm jogado à bola neste campeonato.
Dito isto, o resultado justo até seria um empate, porque deu sempre a sensação de que as equipas tinham mais medo de perder que ambição de ganhar. Ainda assim, tendo que haver um vencedor, o triunfo acaba por assentar bem ao Porto. Isto porque o Sporting, jogando em casa, precisando de ganhar e vindo de mil vitórias seguidas, não foi capaz de mandar no jogo como fez, por exemplo, no jogo da Taça disputado há poucas semanas no Dragão, em que acabou por perder nos penaltis.
A vitória nos últimos minutos lembrou-me os pouco saudosos tempos do Porto à séria, o do penta e essas tretas todas, em que o Porto ganhava sempre, mesmo que muitas vezes sem saber ler nem escrever ou com a mãozinha do árbitro, mas, no fundo, ganhava porque era a equipa que mais queria ganhar.
E assim fica o campeonato entregue, e bem entregue. Como adepto do Benfica, é-me relativamente indiferente quem ganhe a prova, embora deva admitir que me é mais confortável uma vitória do Porto. Eles moram lá para cima e assim tenho que aturar menos gajos que se o Sporting fosse o vencedor. De qualquer forma, creio que os adeptos do Sporting devem estar contentes com a sua equipa. Com grande maioria de portugueses, muitos jovens e muitos deles feitos na casa, é a equipa de que qualquer adepto gosta. Só lhes falta ganhar qualquer coisita, mas isso depende de muita coisa, entre elas a importância da experiência.
No que toca ao Glorioso, repetiu-se na Luz um filme já visto esta época. O Marítimo, treinado pelo Mr. Catenaccio Ulisses Morais, repetiu o que o Gil Vicente, na altura treinado pelo mesmo senhor, fizera no início da época, tendo ganho então por 2-0. Eu estava no estádio, nesse jogo, e saí de lá a sentir-me completamente roubado. Com Ulisses Morais vale tudo. Porrada, fitas até dizer chega, autocarro em frente à baliza e um contra-ataque estranhamente atabalhoado, mas que com o Benfica voltou a funcionar. Nesse jogo com o Gil Vicente, o tempo útil de jogo terá andado pelos 30%, isto porque os jogadores de Barcelos devem ter comido alguma coisa que lhes caiu mal, e de trinta em trinta segundos caíam no relvado como se um sniper os tivesse atingido da bancada. Isto perante a impavidez do senhor árbitro, que com tudo pactuou, como aconteceu de novo no último jogo com o Marítimo.
O senhor juiz deixou por assinalar um penalti a favor do Benfica, quando ainda estava 0-0, com um pedreiro chamado Briguel a agredir o genialito Miccoli dentro da área. Era penalti e cartão vermelho, ainda na primeira parte. Junte-se a isto uma mão cheia de foras de jogo inventados, um cabeceamento do Mantorras que pode ou não ter entrado, e alguma coisa se começa a perceber acerca do rumo do resultado.
Não quero com isto dizer que houve um roubo intencional. E isto torna ainda mais grave o que se tem passado com as arbitragens em Portugal nos últimos dois anos (tudo começou com alguns jogos de benefício escandaloso a favor do meu Benfica, e estendeu-se por esta época com casos mal resolvidos todas as semanas). É mais grave porque, de facto, estamos perante o caso mais gritante de incompetência da sociedade portuguesa. Em qualquer outro sector de actividade, a incompetência demonstrada pelos senhores juízes da bola teria há muito levado qualquer empresa ou actividade à falência. Mas é futebol, só prende a atenção de 70% dos portugueses e movimenta uns milhões de euros, portanto não faz mal.
(Por falar em arbitragens, o Sporting-Porto foi uma vergonha. Como dizia n’A Bola, “o árbitro esteve sempre mais preocupado em proteger-se a si próprio do que em proteger o jogo”. E não se pode despedi-los?).
Após estar a perder 2-0, o Benfica puxou da alma que o levou ao título no ano passado e chegou ao empate, infelizemente sem qualquer golo do profeta Mantorras, que parece ter desaprendido de fintar mas está cada vez mais perigoso junto da baliza adversária. Uma referência final para Moretto, que depois de ter ganho claramente o lugar em Barcelona, parece empenhado em dar um ataque de coração aos adeptos sempre que decide inventar (ou seja, em 50% das ocasiões de que dispõe para tal).
Empatámos, podíamos ter perdido, merecíamos ter ganho. Acontece.
Após a derrota do Sporting, o Glorioso deixou fugir de vez a (remota) hipótese de chegar ao segundo lugar, o que é perfeitamente justo dado o valor demonstrado por Porto e Sporting.
Agora é deixar arrastar a época até final, e tentar não deixar fugir o terceiro lugar.
Referência ainda para o acontecimento mais feliz da jornada, a derrota do Guimarães. Eu odeio o Guimarães. É o único clube pequeno que eu quero que perca sempre. Odeio os seus adeptos que ainda não perceberam que o seu clube é o Guimarães e não o Milan, que partem cadeiras sempre que perdem, que querem agredir tudo e todos, que quando jogam contra o Benfica se transformam numa horda de bárbaros determinados a morrer em campo (isto depois de matar literalmente todos os adversários).
E adorei ver o Vítor Pontes a choramingar contra as arbitragens. Quando eliminaram o Benfica da Taça, na Luz, fizeram-no com a ajudinha do árbitro (lembram-se da grande assistência feita com a mãozinha marota?), mas no final veio dizer que não se devia falar das arbirtagens.
Mas agora, que acha que está a ser roubado, já se deve falar nisso. Vítor Pontes, o Mourinho wanabe, o Parolo Armani, foi ao ponto de dizer que não acredita que seja algo contra o Guimarães, mas sim contra ele próprio, “se calhar há muita gente que não gosta do Vítor Pontes”. Isso é compreensível, digo eu, até pelo seu inacreditável penteado, mas ninguém rouba o Guimarães para penalizar o seu treinador. O Guimarães, em si, merece ser roubado, o facto de ser treinado pelo capachinho falante torna a coisa apenas mais divertida.
Até à próxima jornada.

A Final Antecipada

E prontos, lá se foi o Benfica da Liga dos Campeões.
Na verdade, a eliminatória foi bem menos equilibrada que os 2-0 do saldo final.
Baile cá, baile lá, e sobretudo uma gritante incapacidade do Benfica em fazer fosse o que fosse perante o colossal Barcelona, que é de facto uma máquina de jogar à bola.
Eu sei que nos roubaram um penalti cá, que o Simão podia ter marcado lá e aí estaríamos em vantagem. Eu sei. Com uma dose cavalar de sorte podíamos ter passado, mas isso seria completamente injusto.
Duas notas finais.
Em primeiro lugar, para Koeman. Queria tudo menos levar uma tareia, para não lixar de vez as possibilidades de vir a treinar o Barça. E isso conseguiu, mas o seu medo e a sua falta de ambição espalharam-se a toda a equipa, deixando claríssimo que o Benfica está ainda algo longe da elite do futebol europeu. Em relação ao Barça, é outra galáxia.
A última nota para Moretto, que fez um jogaço e agarrou o lugar. Há-de lixar tudo outra vez, mas ganhou claramente o lugar.
Mais do que com o resultado, a eliminação e a grande merda de exibição, confesso que fiquei preocupado com as declarações no final do jogo. Ricardo Rocha, o nosso único central português, aproveitou a oportunidade para dizer à Europa que quer sair no final da época. Terá as suas razões, mas isto demonstra que, para o Benfica, a temporada acabou, e será um penoso trabalho ver a equipa jogar o resto do campeonato. Metade do plantel já pensa nos contratos e na próxima época, outros no Mundial.
Por este ano acabou. Não foi excelente mas foi engraçado.